Vinculação com a sociedade · Encontro internacional
Seminário Arquitetura e Etnografia
O Centro de Produção do Espaço participa, desde sua fundação, do Seminário Internacional Arquitetura e Etnografia — a instância em que a tríade lefebvriana que organiza nossas linhas de pesquisa (o espaço percebido, concebido e vivido) é submetida ao escrutínio de outras disciplinas e retorna transformada em novas perguntas de pesquisa. O vínculo não é protocolar: é a evidência de que investigar a produção do espaço exige sair do campo disciplinar da arquitetura.
Para o CPE, o Seminário funciona como um canal de mão dupla. Por um lado, permite incorporar precocemente à nossa agenda de pesquisa discussões que ainda não têm lugar estabelecido na arquitetura chilena — cosmotécnica, ontologias situadas, a virada sensorial nos estudos do espaço — antes que se traduzam em artigos, projetos FONDECYT ou novas linhas de trabalho do Centro. Por outro, oferece uma saída: um espaço em que os achados do CPE são expostos à conversa com antropólogos, geógrafos, sociólogos e urbanistas de outras latitudes, antes de se consolidarem em publicações indexadas.
Além de seu valor teórico, o Seminário é um dos principais mecanismos de vinculação do CPE com a sociedade: edição após edição, sustenta uma relação fluida e constante com a comunidade acadêmica nacional e internacional, com pesquisadores convidados, e com um público que ultrapassa a arquitetura e se estende à antropologia, à geografia e aos estudos urbanos.
Programação, edições anteriores e inscrições no site oficial do Seminário Internacional Arquitetura e Etnografia.
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O Seminário Internacional Arquitetura e Etnografia surge como um espaço de encontro transdisciplinar para repensar as relações entre espaço, cultura e técnica.
Desde sua primeira edição, o seminário se situou em um campo emergente de pesquisa que busca articular a dimensão material e humana do habitar, o que Albena Yaneva chamou de virada etnográfica da arquitetura. Essa perspectiva se consolidou em 2018, quando Momoyo Kaijima apresentou, no pavilhão do Japão na Bienal de Veneza, o marco da Architectural Ethnography, abrindo novas possibilidades para representar os lugares por meio de desenhos e diagramas capazes de tensionar hierarquias entre humanos e não humanos, e de capturar as texturas da vida cotidiana.
Em sua primeira versão, o seminário se concentrou em explorar como a pesquisa arquitetônica, historicamente ancorada na representação técnica e quantitativa, poderia se enriquecer com ferramentas etnográficas, reconciliando-se com sua natureza social e fortalecendo seu pensamento crítico. O segundo encontro ampliou esse olhar ao incorporar imagens, sons e biografias situadas, enfatizando o papel dos sentidos na epistemologia do socioespacial e reunindo pesquisadores de diferentes disciplinas — arquitetura, antropologia, geografia, urbanismo e sociologia — em um mesmo campo de discussão. A terceira edição abraçou a virada sensorial nos estudos do espaço, reconhecendo a parcialidade e o peso dos corpos no estar-no-lugar. A partir daí, assumiu-se que a arquitetura não pode se desvincular da experiência encarnada, afetiva e situada, e que a etnografia oferece um conjunto de métodos para acessar essas dimensões do habitar que as métricas convencionais costumam invisibilizar.
Esta nova edição propõe-se a revisar as cosmotécnicas na América Latina, explorando suas dimensões epistêmicas, políticas e estéticas a partir de um olhar situado. Seguindo Yuk Hui, entendemos que “a técnica não é antropologicamente universal; as técnicas das diferentes culturas são afetadas pelas concepções cosmológicas dessas culturas e são autônomas apenas dentro de um determinado ambiente cosmológico: a técnica é sempre cosmotécnica” (Hui, 2024: 34–35). Desde essa perspectiva, a arquitetura não pode ser pensada como uma mera aplicação neutra de técnicas construtivas, mas como uma prática profundamente enraizada em modos culturais de entender o mundo, de habitá-lo e de transformá-lo. Hui propõe entender a cosmotécnica como “a unificação da ordem cósmica e da ordem moral por meio de atividades técnicas”, o que desafia as noções funcionalistas e universais que ainda predominam em muitas práticas arquitetônicas contemporâneas.
Nesse marco, interessa-nos retomar as discussões propostas por antropólogos como Philippe Descola e Eduardo Viveiros de Castro, que recorreram às cosmologias amazônicas como via para questionar a divisão entre natureza e cultura, tão arraigada na tradição ocidental (Hui, 2024: 38). A arquitetura, enquanto prática técnica e cultural, é interpelada por essas outras formas de pensar a relação entre matéria, espírito e território. Assim, o Seminário Arquitetura & Etnografia se abre para imaginar e discutir práticas espaciais que emergem de outros regimes ontológicos, de outras cosmotécnicas, que oferecem alternativas situadas para repensar a arquitetura em relação ao habitar, ao conhecimento e à Terra na América Latina.
Perguntas que orientam esta edição
- Como pode a arquitetura se abrir a outras formas de pensar a técnica, para além dos marcos funcionalistas e produtivistas herdados da modernidade?
- Como pode a etnografia contribuir para desvendar as técnicas situadas que articulam cosmologias, materiais e formas de vida?
- O que acontece quando a arquitetura é pensada não como uma resposta técnica universal, mas como uma prática situada?
- Pode a arquitetura se tornar um meio para recompor vínculos entre técnica, ética e território em contextos atravessados pela crise planetária?
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